Every Second Counts
- Pedro Dias
- 20 de jul.
- 4 min de leitura

Na semana passada, estava assistindo à última temporada da série The Bear na Disney. Tem essa placa na cozinha com uma frase que aparece o tempo todo: "Every Second Counts" (Cada segundo conta).
Dentro daquela cozinha, o sentido é óbvio. Alta performance, pressão, precisão. Um segundo de atraso estraga o prato e toda a performance do restaurante. Faz muito sentido. Mas ando pensando que há outra leitura dessa frase.
Talvez cada segundo não conte só porque a gente precisa produzir mais. Talvez cada segundo conte porque cada segundo é a sua vida acontecendo.
Não é falta de tempo, é a relação com o tempo
Converso com muitos empresários e líderes que relatam o mesmo problema: falta de tempo. Se tivessem mais tempo, cuidariam melhor da empresa, pensariam a estratégia, descansariam, estariam mais presentes em casa, começariam aquele projeto parado há dois anos. A conta parece simples: mais horas no dia resolveriam tudo.
Só que raramente é sobre a quantidade de tempo. É sobre a forma como a gente tenta viver o tempo que já tem.
A geração que quer viver cinco fases ao mesmo tempo
Existe uma geração inteira de gente boa tentando viver as cinco fases da vida ao mesmo tempo.
Quer construir a empresa e colher os resultados agora.
Quer crescer rápido e já ter a tranquilidade de quem já passou pela fase mais intensa.
Quer lançar um projeto novo sem soltar nenhum dos antigos.
Quer a liberdade sem atravessar o processo que a constrói.
No fundo, é uma tentativa de viver a linha do tempo de trás para frente: você olha para o resultado que quer e se frustra porque a realidade de hoje ainda não se parece com ele.
O que quase ninguém quer ouvir sobre processo

E aqui está o que quase ninguém quer ouvir: talvez a coisa que a gente menos entende hoje seja processo.
Vivemos orientados a resultados e isso não é um defeito. Quem lidera precisa saber onde quer chegar. O problema começa quando o caminho até lá vira só mais uma coisa para aguentar. A construção da empresa passa a ser o preço a pagar para ter uma empresa consolidada. Os primeiros anos de carreira, o preço do reconhecimento. O esforço de hoje, o preço de viver melhor algum dia. Sem perceber, a gente transforma o presente numa sala de espera.
E fica sempre esperando algo terminar para finalmente começar a viver.
Quando a empresa crescer. Quando a rodada sair. Quando esse projeto acabar. Quando a agenda acalmar.
O futuro tem um detalhe cruel: quando ele chega, vira presente na mesma hora, e a gente já inventa um novo futuro para perseguir.
A meta de 10 milhões vira 50.
A posição que você queria abre espaço para uma maior.
A liberdade que você imaginava some atrás das responsabilidades que apareceram.
Segue o jogo.
Ambição não é ansiedade
Não tem nada de errado em querer mais. Ambição faz parte. O que cansa não é a ambição. É a ansiedade disfarçada de ambição.
São coisas diferentes. Ambição olha para o futuro e trabalha no presente. Ansiedade tenta viver o futuro antes da hora. Boa parte da nossa exaustão vem daí, dessa pressa de colher o que ainda está criando raiz. A gente quer a clareza de quem tem vinte anos de estrada depois de dois. Quer que uma empresa recém-nascida opere com a eficiência de uma empresa madura. Quando isso não acontece, lê o processo natural como se fosse um problema.
O processo forma quem vai sustentar a conquista
Entender o processo é aceitar que algumas coisas não aceleram além de um certo ponto.
Relacionamento se constrói.
Confiança se desenvolve.
Cultura se forma.
Reputação se conquista.
Ideia amadurece.

Dá para encurtar caminho, mas nem sempre dá para pular etapa. E tem uma parte disso que é fácil ignorar: o processo não está só entre você e a conquista. Ele está formando a pessoa que vai conseguir sustentar aquilo que você quer conquistar.
Por isso, a reunião que parece pequena conta.
A conversa difícil conta.
O erro conta.
A decisão que não funcionou conta, porque constrói um discernimento que teoria nenhuma ensina.
Talvez maturidade seja isso: olhar para onde você quer chegar sem desprezar o lugar onde você está.
Every Second Counts é um convite à presença
E é aqui que a placa de The Bear ganha outro sentido para mim.
Every Second Counts não precisa ser um lembrete de que o tempo está acabando.
Pode ser um convite à presença.
Porque nem todo segundo precisa produzir algo para ter valor aparente.
O descanso conta.
O almoço com os filhos conta.
A conversa sem pauta conta.
O silêncio antes de uma decisão conta.
Administrar o tempo x habitar o tempo
Tem uma diferença entre administrar o tempo e habitar o tempo.
Administrar é necessário: existem metas, prazos, gente que depende das suas decisões. Mas habitar o tempo é entender que a vida não começa depois que a agenda se esvazia. Ela está acontecendo dentro da agenda, agora, na empresa que ainda não chegou onde você queria, na fase que parece confusa, no projeto que ainda está tomando forma.
Carrego uma frase há algum tempo:
“A vida é um presente para ser vivida no presente, como um presente.”
Parece jogo de palavras, e talvez seja, mas tem algo ali. A gente foi treinado para tratar o presente como um investimento para o futuro. E ele é isso também. Mas não é só isso. O presente é a própria vida.
Continua sendo preciso planejar, construir, olhar para frente. Esperança também é uma forma de trabalhar. O que dá para mudar é parar de tratar o agora como um lugar que você só tenta atravessar. Porque quando esse ciclo terminar, outro começará. Depois dessa meta, vem outra. Provavelmente nunca vai existir aquele ponto final em que dá para dizer: pronto, agora posso viver.
A entrega importa.
O resultado importa.
A conquista importa.
O caminho também.
Cada segundo conta porque cada segundo é um presente.





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