Toda Floresta Começa com Uma Árvore
- Pedro Dias
- há 6 dias
- 4 min de leitura
Hoje vou compartilhar algo super especial que aconteceu no úlitmo sábado (25.07). Organizamos e passamos uma manhã na Soho House conversando sobre arte com cinco pessoas que admiro muito e que estão desenvolvendo um trabalho fantástico de impacto social.

A Ana Júlia Reche, que transformou uma jornada artística e documental pela América Latina em uma investigação e acervo da memória humana, com o projeto El Camino de Mi Alma. A Gabriela Gotoda, pesquisadora e responsável pela curadoria de arte do Museu de Arte Moderna (MAM), trabalha para aproximar pessoas da arte e cuidar do que uma sociedade decide preservar. É impossível não se apaixonar por museus depois de ouvi-la falar. Também tivemos a presença da Karen Brandoles, do Instituto Passarela Alternativa, que ressignifica a vida de mulheres que estão no sistema prisional e em situação de vulnerabilidade, por meio da moda e do upcycling, para gerar renda, educação e transformação integral. A Larissa Meira Dias, minha esposa, sócia e também autora/escritora que transformou uma experiência de vida muito profunda em escrita, narrativa e comunidade com o projeto e comunidade Espremendo o Limão. E o Pegge, artista plástico e músico cuja obra atravessa autorretrato, ancestralidade e cultura afro-brasileira. Hoje o artista mais jovem com obra no acervo permanente do Museu de Arte de São Paulo (MASP). E eu fui falar da comunidade de criativos que estamos desenvolvendo desde 2024 em São Paulo, que não tem um nome de projeto, mas uma referência: “a casa do Pedro e da Lari”, que tem sido um ambiente seguro para líderes, artistas e criativos se abrirem durante um jantar semanal realizado em nosso apartamento, no centro de São Paulo.
Trajetórias muito diferentes. Curadoria, moda, escrita, música, artes visuais, jantares e comunidade.
Para conduzir a conversa, levei uma imagem que nasceu naquela manhã, pela qual, inclusive, precisei refazer todos os slides da apresentação: a floresta.
E, quanto mais a manhã avançava, mais eu percebia que aquele talk não era sobre arte. Era sobre pessoas que buscavam construir uma vida com propósito.
O que uma floresta ensina sobre identidade?
Toda floresta começa com uma árvore.

Antes de qualquer coisa, uma árvore precisa existir por inteiro. Raiz firme, tronco próprio, forma única, seiva correndo. Nenhuma árvore cresce tentando ser outra.
Na nossa vida, essa individualidade tem um nome: identidade.
É o primeiro trabalho de qualquer pessoa. Depois de entender quem sou, no que me transformei depois de tudo o que vivi. O que permaneceu. O que mudou. O que essa experiência revelou sobre mim?
No sábado, ninguém contou uma história pronta. Ana Júlia, Gabriela, Karen, Larissa e Pegge compartilharam relatos de dores, recomeços, crises de identidade e momentos em que não sabiam o que fazer diante do que estavam vivendo. Foi disso que cada identidade se formou. Não do que deu certo, mas do que foi atravessado.
Quando a identidade vira propósito?
Uma árvore madura dá fruto. E o fruto é a primeira coisa que a árvore produz que não existe para ela mesma. Existe para alimentar o outro.
É isso que eu chamo de propósito. O momento em que aquilo que você viveu e compreendeu começa a servir alguém.
Vi isso em cada história daquela mesa. A Karen transformou a própria trajetória em roupa e em uma oportunidade para outras mulheres. A Gabriela encontrou no museu uma forma de aproximar as pessoas da própria história. A Larissa transformou processos pessoais em uma comunidade que se apoia. A Ana Júlia e o Pegge encontraram na fotografia, na pintura e na música uma forma de devolver ao mundo algo do que receberam e de esperança.
A dor encarada e processada virou linguagem. A inquietação virou projeto. O que um dia parecia só confusão virou repertório.
E percebi mais uma coisa ali: o processo importa tanto quanto o resultado.
Porque é no processo que o outro se reconhece.
Ninguém se enxerga em uma obra pronta. As pessoas se enxergam no caminho.
E quando os propósitos se encontram?
Uma árvore sozinha dá fruto. Mas floresta é outra coisa.
Floresta acontece quando várias árvores, cada uma com sua identidade e seu fruto, passam a viver juntas.
Uma protege a outra.
O solo fica mais fértil.
Nasce sombra, nasce abrigo, nasce vida que nenhuma delas geraria sozinha.
Isso tem nome: comunidade.
Foi assim que dividimos a conversa no sábado. Arte para mim, para falar sobre identidade. Arte para ti, como propósito. Arte para nós, o que se desenvolve a partir da comunidade. Primeiro, a arte me impacta, me ajuda a entender quem sou.
Compartilhamos a primeira experiência que tivemos com arte. Depois, aquilo que carrego começa a servir alguém. E então, o que nasce dentro de uma pessoa cria espaço para que outras também pertençam.
O que aconteceu quando a conversa terminou?
A parte que mais me marcou veio depois.
Começaram a chegar mensagens. Uma pessoa que estava sem esperança para atravessar um momento da vida disse ter enxergado uma luz ali. Outra questionava a própria profissão e percebeu que não precisava abandoná-la. Precisava enxergá-la de outro jeito, como um instrumento de transformação. Outras simplesmente disseram: eu estava me sentindo sozinho, quero estar perto de vocês.
E teve um comentário que resume tudo. Alguém pediu que a gente proporcione mais momentos assim. Não porque falamos de sucesso empresarial. Não falamos. Mas porque falamos de como fazer diferença no mundo a partir de quem somos.
Qual é o convite desta semana?
Talvez você não seja artista. Não importa.
A lógica da floresta vale para a sua empresa, a sua profissão, o seu projeto, a sua mesa, a sua casa.
A pergunta não é apenas "o que eu quero construir?". Existe uma pergunta anterior: "o que existe em mim que pode se tornar um lugar para o outro?"
Comece por ela.
Entenda a sua história.
Deixe que ela dê fruto.
E depois procure outras árvores.
Porque dá para ir além.
Dá para deixar o mundo melhor do que encontramos.
Mas ninguém vira floresta sozinho.
Se essa conversa fez sentido para você, venha caminhar com a gente. A nossa comunidade existe exatamente para isso: pessoas construindo com significado, juntas.



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