Quem pode se sentar à sua mesa?
Atualizado: 19 de out.
Tenho pensado bastante sobre como uma amizade verdadeira e cheia de propósito pode, numa tarde de domingo, durante um almoço, deixar de ser só conversa e começar a ganhar papel, plano, nomes, um espaço de possibilidades transformadoras.

Existe uma distância considerável entre carregar uma ideia dentro de você e ter coragem de colocá-la no mundo. Talvez seja justamente nessa distância que algumas amizades se revelem. Tem amigo que celebra quando dá certo. Tem amigo que escuta quando dá errado. E tem um tipo mais raro, que consegue enxergar alguma coisa em você enquanto aquilo ainda está incompleto. Foi esse tipo de amigo que eu vi, dos dois lados da mesa.
O que a estrutura promete, você já faz?
Nossa amiga está construindo uma plataforma para ajudar institutos e projetos sociais a gerar mais impacto. Está no meio da construção, nessa fase em que ainda falta muita coisa pronta. Mas, olhando para ela, pensei em uma coisa que me pareceu óbvia e, ao mesmo tempo, rara de se ver: o que a plataforma promete fazer, ela já faz.
Não é a estrutura que vai criar generosidade nela.
É a generosidade dela que vai sustentar a estrutura.
Ela não esperou ter tudo pronto para começar a agir como quem já chegou lá.
Começou antes.
E talvez o mais bonito daquele domingo não tenha sido só isso. Foi ver como ela e a Lari, ao longo desse tempo, foram ganhando vida juntas. Uma impulsiona a outra.
A Lari carrega uma ideia que nasceu da própria história dela, e essa amiga carrega uma vontade de fazer bem que também nasceu de algum lugar que não me cabe contar. Em algum momento, essas duas coisas se encontraram, e não sei mais dizer quem ajudou quem primeiro. Hoje é difícil separar o que nasceu de cada uma e o que nasceu do encontro das duas.
Você tem contatos ou tem amigos?

Acho que subestimamos esse tipo de riqueza. Falamos muito sobre networking, sobre construir boas relações, sobre ter acesso às pessoas certas, sobre estar nos ambientes certos. Já fiz isso. Já tratei acesso como se fosse vínculo, e levei um tempo para entender a diferença entre as duas coisas. Talvez exista algo anterior a tudo isso, que é simplesmente ter amigos.
Não contatos. Amigos.
Pessoas diante das quais nossos sonhos não parecem inconvenientes, que não se sentem ameaçadas quando começamos a crescer, que não diminuem nossas ideias para que elas caibam na realidade atual.
Quantas pessoas poderiam se sentar à sua mesa?

Quem lidera vive cercado de gente o tempo todo: reunião, mensagem, pedido, decisão. E, mesmo assim, é possível estar cercado, sem ninguém que realmente enxergue o que ainda está incompleto em você.
Talvez valha a pena perguntar, sem pressa de responder: quantas das pessoas ao seu redor hoje conseguiriam se sentar à sua mesa e ver aquilo que você ainda nem terminou de nomear?
O que é, no fundo, ajudar alguém a crescer?
Porque existem momentos em que não precisamos de alguém para dizer o que fazer. Precisamos de alguém que nos lembre quem somos. Talvez uma das formas mais altas de amizade seja essa: ajudar alguém a se tornar aquilo que você já consegue enxergar nela, sem carregar o outro, sem decidir por ele, sem viver a vida dele. Só chegar perto o suficiente para dizer que aquilo que existe por dentro merece existir por fora também, e depois ajudar a construir a ponte.

Tenho pensado que uma vida rica talvez tenha menos a ver com quantas pessoas conhecemos e mais com quantas pessoas podem se sentar à nossa mesa.
Pessoas com quem dividimos comida, dúvidas, projetos, fracassos, fé, sonhos e futuros ainda em construção.
Naquele domingo, à mesa, vi duas dessas pessoas crescendo juntas.
No fim, talvez amizade seja isso: participar, com cuidado, carinho, daquilo que o outro ainda está se tornando.





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