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Audiência não é comunidade

22 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 19 de out.

Tenho pensado bastante sobre a diferença entre reunir pessoas e criar comunidade entre elas. Talvez porque essa confusão apareça o tempo todo à nossa volta: grupos de WhatsApp, eventos, listas de contatos, clubes, comunidades de marca. Colocamos muita gente dentro do mesmo ambiente e concluímos que uma comunidade nasceu.

Mas talvez essa pergunta interesse ainda mais a quem lidera. Porque liderar, na maior parte do tempo, é ocupar o centro. É ser a pessoa que fala, que é olhada, que precisa ter uma resposta pronta. E existe um cansaço nisso que a gente raramente nomeia, o de estar sempre em audiência e raramente em comunidade.

Pintura abstrata de multidão colorida em pinceladas vibrantes, com figuras sem rosto em rosa, azul, amarelo e vermelho.

Uma cena recente me ajudou a enxergar isso com mais clareza. Fui a um jantar em que o anfitrião havia reunido um pequeno grupo de pessoas para ouvir um convidado falar sobre algumas ideias que defende.


Em determinado momento da noite, o convidado chegou. Foi apresentado, falou sobre aquilo em que acredita, respondeu perguntas, cumprimentou as pessoas e, depois de algum tempo, foi embora. Tudo aconteceu como deveria acontecer. Havia uma sala cheia de gente interessante, com histórias, repertório e capacidade de fazer as coisas acontecerem. Havia atenção, acesso, influência. Mas quando ele saiu, fiquei com a sensação de que pouca coisa tinha sido construída entre ele e aquelas pessoas.

Houve audiência. Não necessariamente conexão.


O jantar continuou...

Mesa de jantar à luz de vela, mãos servindo pratos, taças e uvas em clima íntimo e acolhedor.

Aos poucos, algumas pessoas foram embora e um grupo menor acabou ficando, sem apresentação, sem alguém tentando convencer o outro de nada, sem uma agenda a cumprir. O próprio dono da casa ficou com a gente, e aquilo que deveria ser só o fim de um jantar atravessou a noite e entrou pela madrugada.


Começamos a conversar. Alguém contou parte da própria história, outro compartilhou algo que estava vivendo, falamos sobre negócios, família, pets, escolhas, dificuldades, coisas que provavelmente não apareceriam numa primeira apresentação.

Houve perguntas, risadas, interesse genuíno por quem estava ali, não pelo que cada um representava.


Pela primeira vez naquela noite, ninguém estava olhando só para uma pessoa. Estávamos todos, finalmente, olhando uns para os outros. Talvez seja exatamente disso que a gente sinta falta sem saber nomear.


Proximidade é a mesma coisa que vínculo?

Multidão estilizada em tons de azul, com uma pessoa em vermelho ao centro, destacando-se entre rostos sem detalhes.

Talvez uma das grandes confusões do nosso tempo seja chamar audiência de comunidade. Uma audiência funciona de um jeito relativamente simples: alguém ocupa o centro e os outros prestam atenção.


Comunidade funciona de outro jeito.


Nela, as pessoas não se relacionam só com quem está no centro, elas começam a se reconhecer umas nas outras. E isso muda tudo, inclusive para quem lidera.


E qual tem sido o assunto quando te encontram?

Se você costuma ser a pessoa que ocupa esse centro, talvez valha a pena se perguntar isso. Não falo de trabalho. Falo de ter gente por perto que te enxerga como pessoa antes de te enxergar como líder. Do impacto que é causado ao sair de uma conversa com você. Obviamente, às vezes vamos nos organizar encontros apenas pra "jogar papo fora", mas o que estamos criando, de certa forma, é um ambiente seguro para aquele determinado grupo de pessoas se sentir cada dia mais à vontade e ter um ponto de referência para aquilo que está sendo cultivado.


Uma audiência depende muito de quem está no palco. Quando essa pessoa sai, a experiência quase sempre termina junto com ela. Uma comunidade consegue continuar quando quem reuniu as pessoas deixa de conduzir a conversa.


Talvez uma das melhores evidências de que uma comunidade está nascendo seja justamente essa, quando as relações já não dependem mais de quem originalmente juntou todo mundo.


Existe comunidade ou existe apenas o estímulo?

Talvez por isso tantas iniciativas chamadas de comunidade sejam, na prática, apenas canais de distribuição. O grupo existe enquanto existe conteúdo, o evento funciona enquanto existe programação, as pessoas aparecem enquanto existe alguma vantagem clara.

Basta retirar o estímulo para percebermos se há algo além dele.

Jantar em preto e branco, com pessoas reunidas à mesa em ambiente elegante, luzes borradas e clima animado.

Construir comunidade de verdade exige tempo,

repetição,

convivência,

memória compartilhada,

espaço suficiente para que as pessoas deixem de ser apenas contatos.


E talvez exista uma pergunta especialmente importante para quem deseja construir marcas, movimentos ou redes de relacionamento.


Normalmente começamos perguntando "como eu ativo essas pessoas?".


Talvez devêssemos começar um pouco antes: "que relação existe aqui antes de eu precisar de alguma coisa delas?".


Que comunidade existe ao seu redor, para você?

Naquela noite, o momento que mais ficou comigo aconteceu depois que a apresentação terminou, quando a maior parte das pessoas já tinha ido embora e o dono da casa, que poderia simplesmente ter encerrado a noite, decidiu ficar. Ficamos conversando até a madrugada.


Talvez a diferença entre os dois momentos da mesma noite esteja exatamente aí. Enquanto alguém ocupa o centro, as pessoas olham para essa pessoa. Quando ninguém mais ocupa o centro e a conversa continua do mesmo jeito, é porque alguma coisa já tinha começado a existir entre elas.

Vista aérea de uma mesa de jantar com várias pessoas comendo, pratos quase vazios, velas acesas e clima acolhedor.

Se você lidera alguma coisa, talvez valha a pena perguntar não só que comunidade você está construindo para o seu negócio, mas também que comunidade existe ao seu redor para você.


Um lugar onde, de vez em quando, ninguém precise ocupar o centro. Nem você.



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vamos começar do começo

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