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Evoluídos, mas nem tanto.

Sempre criamos narrativas para dar sentido à vida. Mas e quando o excesso de informação vira ruído? Um convite a voltar ao essencial e a simplificar com propósito. Porque voltar ao essencial nunca foi tão necessário.

Silhueta de uma pessoa numa caverna, olhando vales e montanhas enevoadas em tons azulados, clima silencioso e contemplativo

Os seres humanos sempre foram criadores de mitos.


É o que Armstrong afirma em seu livro, Breve História do Mito. E diferentemente do significado atribuído no nosso tempo, o mhythos aqui significa narrativa. São formas que a humanidade encontra de explicar e lidar com questões difíceis de assimilar.


Ossadas de homens de Neandertal encontradas em cavernas mostravam que alguns estavam em posições diferentes, tinham artefatos e resquícios de rituais que indicavam que eles adquiriram consciência da sua mortalidade.


Era um ritual fúnebre. Mesmo sem palavras para isso, eles já buscavam sentido. Dessa forma compreendemos que o homem “desde épocas muito antigas distingue pela capacidade de ter pensamentos que transcendem sua experiência cotidiana”.


Somos criaturas em busca de sentido. “Os seres humanos facilmente se desesperam, e desde a origem mais remota inventamos histórias que permitem situar nossas vidas num cenário mais amplo e nos dão a sensação de que a vida, apesar de todas as provas caóticas e arrasadoras em contrário, possui valor e significado”.



Lemos os outros enquanto escrevemos a nós mesmos

Pintura rupestre em tons de ocre e preto, com figuras de animais e traços humanos sobre parede de pedra.

A nossa busca por significado nos leva a criar narrativas e ler os outros pelos olhos das suas próprias narrativas.


Vivemos um tempo de ler aos outros enquanto escrevemos a nós mesmos. Michel Alcoforado, numa entrevista, falou sobre como o consumo também assumia esse lugar de exposição de narrativas, como uma forma de “economizar energia”, enquanto eu mostro para o outro como “eu vivo”, “do que gosto”, com “quem ando”, “do que me alimento”.


Talvez estamos mostrando para o mundo em que acreditamos e quando fazemos isso, atraímos aqueles que acreditam da mesma forma, ou que querem fazer parte desse mesmo universo.


Penso numa cena banal: alguém fotografa o café da manhã antes de comer. Não é sobre o café. É sobre dizer, em silêncio, que tipo de pessoa se é, que acorda assim, que valoriza aquilo. O prato esfria, mas a narrativa fica de pé.


O significado, moeda de dois lados

O significado me parece ser dois lados da mesma moeda.


Ele atribui peso, substância e coerência ao que eu vivo ao passo que devolve relevância, afirmação e segurança.


Eu sei o que sou, eu sei o que faço, isso dá certo e é sustentável. Esse ciclo, que se retroalimenta de informação e identidade, caiu nas graças das grandes correntes de comunicação. Em certo grau, foi banalizado.


Ler o conteúdo digerido pela inteligência artificial pode nos fazer mais informados, mas não significa que conhecemos mais, podemos estar no “oceano de dois dedos de profundidade".


Nosso excesso de informação está nos matando.


O mythos não se compromete com a verdade

Silhuetas em caverna azul: uma pessoa borrada de chapéu em primeiro plano e outra no morro, diante de montanha na névoa.

Uma característica do mythos é que ele não é comprometido com a verdade. Não se engaja em responder com fatos e falavam do atemporal, do inexplicável. Sobre isso Armstrong diz que “As pessoas do passado estavam preocupadas com seu significado”. Era uma forma de passar adiante o aprendizado. De estar equilibrado diante do que estava oculto para eles.


Num sentido, percebo que mantemos esse aspecto do mythos intacto. O produzido não precisa ser verdadeiro, mas precisa de um significado verdadeiro. E assim mais um ato se inicia nesse teatro de mythos.


Mostre quem você é pelo que você consome e eu mostro se eu gosto de você pelo que você consome. Esse ciclo vicioso tem prazo, e essa história já conhecemos.


Voltar ao essencial

Por isso, voltar ao essencial nunca foi tão necessário e por isso pensar em significado nunca foi tão procurado.


Simplificar deixou de ser uma palavra em desuso, agora tem destaque, porque quem simplifica também comunica algo.


Saudade da caverna

Pinturas rupestres de animais em parede de caverna, com silhuetas escuras sobre rocha bege e laranja.

Então eu imagino, se um homem de Neandertal viesse no nosso tempo e visse tudo o que produzimos e consumimos, provavelmente ele entraria em choque. Muitas camadas complexas para assimilar e pouco contato com o ser humano. Muito ruído e vitrine, muitos códigos, muito de tudo. Talvez ele sentisse saudade da caverna.


Por isso, revisitar nossa história, por isso compreender o mythos que acreditamos, por isso simplificar o que vivemos.


Do contrário, não seremos mais evoluídos do que o homem de Neandertal.



Comentários


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vamos começar do começo

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