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Ser Responsável Não É Dar Conta de Tudo

25 de ago.
4 min de leitura

Na semana passada, eu não enviei o Terça-Share.


Não foi esquecimento. Não foi falta de assunto. Também não foi porque deixei de considerar isso importante. Eu simplesmente não tinha cabeça para escrever.


Havia trabalho acontecendo, decisões que precisavam ser tomadas e algumas coisas ocupando mais espaço emocional do que o habitual. Quando chegou o momento de sentar e escrever, percebi que produzir mais alguma coisa significaria me colocar deliberadamente em estado de fadiga apenas para cumprir uma tarefa.


Então eu não escrevi.


Pode parecer uma decisão pequena, e talvez seja.

Mas ela me fez pensar em como fomos treinados a interpretar responsabilidade.


Quando a responsabilidade vira compulsão por cumprir?

Durante muito tempo, eu associei ser responsável a não deixar de cumprir tarefas. Se prometi, faço. Se está na agenda, entrego. Se comecei, termino. Se alguém espera de mim, encontro uma forma. Existe muita virtude nisso, e não pretendo desmontar essa ideia.


O problema começa quando transformamos responsabilidade em uma justificativa para ultrapassar continuamente os próprios limites. “Preciso fazer porque sou responsável.” E assim seguimos: mais uma reunião, mais uma entrega, mais um compromisso, mais uma noite trabalhando, mais uma coisa que não cabia, mas que damos um jeito de fazer caber.


Até que aquilo que chamávamos de responsabilidade começa a produzir irresponsabilidade em outras áreas da vida.

Existe uma diferença entre responsabilidade e compulsão por cumprir. A responsabilidade considera a consequência, a capacidade, o contexto, a prioridade e o custo da decisão. A compulsão por cumprir olha apenas para a lista.


Talvez por isso, pessoas extremamente responsáveis estejam entre as que mais facilmente chegam à exaustão. Não porque lhes falte disciplina, mas justamente porque disciplina nunca lhes faltou. Elas aprenderam a suportar, a entregar, a funcionar cansadas e a resolver mesmo quando não estavam bem. Por muito tempo, isso pode até parecer uma virtude.


Até percebermos que conseguir continuar não significa que deveríamos continuar.


O que todo sim carrega dentro dele?

Nenhuma escolha existe sozinha. Todo sim carrega alguns nãos dentro de si.


Dizer sim a uma reunião pode significar dizer não a algumas horas de trabalho concentrado. Dizer sim para mais um projeto pode significar dizer não para a presença em casa. Dizer sim para uma oportunidade pode significar dizer não para o descanso. E, algumas vezes, dizer sim para cumprir uma tarefa significa dizer não à lucidez necessária para realizá-la bem.


Esse é um dos aspectos mais difíceis da maturidade: perceber que decidir não é apenas escolher o que fazer. É também escolher o que não fazer, sabendo qual custo você está disposto a pagar por cada uma dessas escolhas.


O que ser responsável realmente exige?

Não quero transformar isso em uma defesa da desistência nem em uma licença para

chamarmos qualquer desconforto de limite. Há coisas que precisam ser feitas mesmo quando não estamos com vontade. Compromissos importam. Pessoas contam conosco. Existem dias em que ser responsável significa levantar e fazer.


Mas existem dias em que ser responsável significa olhar para tudo o que está diante de nós e perguntar: o que realmente precisa de mim agora?


Essa pergunta é muito diferente de “o que eu ainda consigo encaixar?”.


Existe sabedoria em perseverar e existe sabedoria em interromper. O desafio é discernir qual delas o momento exige, e essa é uma decisão que ninguém toma no seu lugar.


Por que prioridade é permitir que algo não caiba?

Tenho pensado que uma vida sábia talvez dependa menos da nossa capacidade de fazer muitas coisas e mais da nossa capacidade de estabelecer corretamente a ordem delas.


Prioridade não é declarar que algo é importante. Prioridade é permitir que algo importante ocupe espaço suficiente para que outras coisas não caibam. Se tudo cabe, provavelmente nada foi realmente priorizado. Ah, e tem uma curiosidade interessante sobre a palavra "prioridade". Ela vem da ideia daquilo que vem antes, do que ocupa o primeiro lugar. Greg McKeown, autor de Essentialism, costuma provocar dizendo que durante séculos a palavra foi tratada essencialmente no singular e que só muito mais tarde nos acostumamos a falar em “prioridades”.


E a provocação faz sentido: como várias coisas podem vir primeiro ao mesmo tempo?


É claro que podemos ter uma prioridade em cada área da vida, uma na empresa, outra na família, outra nas finanças. Mas, quando dez coisas no mesmo contexto recebem o rótulo de prioridade, talvez estejamos apenas evitando a parte mais difícil: decidir qual delas realmente vem primeiro.


Na semana passada, o Terça-Share não coube. E tudo bem.

Não porque ele deixou de ser importante para mim, mas porque outras coisas precisavam ocupar aquele espaço.


Qual é o convite desta semana?

Talvez responsabilidade seja também isso: não usar as nossas obrigações como desculpa para nos abandonarmos. Não construir uma reputação de pessoa confiável enquanto nos tornamos progressivamente indisponíveis para nós mesmos, para quem amamos e até para o trabalho que realmente importa. Preservar a nossa capacidade de decidir bem também é uma responsabilidade.


Nem todo não é negligência. Alguns são discernimento. Nem toda pausa é falta de compromisso. Algumas protegem exatamente aquilo com que estamos verdadeiramente comprometidos. E nem tudo o que conseguimos carregar precisa continuar sendo carregado.


Diante de uma semana cheia, talvez a pergunta mais importante não seja “como vou conseguir fazer tudo?”, e sim “o que merece o meu sim agora?”.


Porque escolher bem não é aprender a dizer não para aquilo que não importa. Essa parte é relativamente fácil. Escolher bem é aprender a dizer não para coisas importantes porque existe algo ainda mais importante que precisa receber o nosso sim.


Boa terça.


Banner roxo-escuro com a frase signal over noise e o logo origem mkt à direita, em clima moderno e minimalista.

 
 
 

Comentários


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vamos começar do começo

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