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Desconecto, logo existo

1 de set.
3 min de leitura

Escrito por Arianne Araújo

Sexta-feira à noite, enquanto boa parte do mundo leva o celular para jantar, para o sofá, para a cama e, com uma intimidade já pouco discutida, até para o banheiro, o meu ganha asas. Eu coloco o telefone em modo avião e passo o fim de semana fazendo uma coisa que, curiosamente, começou a exigir explicações variadas.


“Será que aconteceu alguma coisa?” e, claro, o clássico que chega até mim sem qualquer cerimônia: “ela demora para responder”. Demoro mesmo, sobretudo nos fins de semana, e essa informação costuma provocar reações muito mais interessantes do que o meu silêncio.

Pessoa com celular preso ao rosto por faixas, com cabos pendurados, em fundo escuro; imagem surreal e inquietante.

Outro dia, numa conversa com o idealizador da Origem MKT, Pedro Dias, contei que deixo apenas o Wi-Fi ligado e, quando saio no fim de semana, habitualmente nem levo o celular, o motivo do convite de estar aqui escrevendo para vocês. As mensagens pessoais ficam para segunda-feira, uma maneira bastante concreta de separar a semana que terminou da vida que continua.


Como a gente vivia antes de estar sempre acessível?

Tenho 45 anos e só tive meu primeiro celular aos 22, já formada e morando a cerca de 3.600 quilômetros da minha cidade de origem. Durante praticamente metade da minha vida, ninguém sabia onde eu estava o tempo inteiro, eu tampouco sabia onde estavam os outros e, ainda assim, conseguimos namorar, terminar, marcar encontros e espalhar notícias com uma eficiência admirável. A humanidade, convém lembrar, já foi capaz de organizar até fofoca sem Wi-Fi.


O que mudou não foi apenas a velocidade da comunicação. Tu carregas no bolso a possibilidade de falar comigo a qualquer momento e, quase imperceptivelmente, essa possibilidade virou expectativa de resposta. Se posso responder e não respondo, alguma explicação parece necessária. Uma facilidade tecnológica ganhou biografia afetiva.

Celular mostra rosto de mulher com óculos; fones presos nas laterais, fundo cinza, texto Hoje 11:42.

Em que lugar o trabalho deixa de ir com você?

Eu sou psicanalista, trabalho remotamente e passo boa parte dos meus dias diante de telas, escutando, lendo, escrevendo e conversando. Se tu empreendes, crias ou trabalhas por conta própria, conheces a engenhoca: o mesmo aparelho reúne escritório, banco, agenda, câmera, notícias, amigos, família e aquele inocente “é só uma coisinha” que raramente chega acompanhado de uma coisinha. O escritório ficou tão portátil que almoça contigo, entra no banheiro e termina a noite na cabeceira.


A grande conquista de levar o trabalho para qualquer lugar trouxe uma pergunta menos celebrada: em qual lugar ele deixa de ir contigo?


Eu não uso o modo avião para desaparecer das pessoas, mas para reaparecer em outros lugares da minha própria vida.

Há uma diferença considerável entre estar próxima de alguém e estar permanentemente acessível a essa pessoa, embora o celular tenha feito um excelente trabalho publicitário para nos convencer de que as duas coisas são quase sinônimas.


Se tu me escreves no sábado e eu respondo na segunda, nossa amizade não entrou em recessão e meu afeto não venceu às 23h59. Quanto às emergências verdadeiras, notícia ruim sempre demonstrou uma capacidade logística impressionante para encontrar seu destinatário, a despeito de quaisquer modernidades.


Por que a ausência passou a exigir justificativa?

O que me diverte, e também me faz pensar, é perceber como a disponibilidade virou prova de consideração e a ausência passou a exigir justificativa. “Tu sumiste”, alguém diz. Às vezes, apenas passaste algumas horas vivendo sem oferecer ao mundo um comprovante digital de existência.


Podemos chamar isso de limite, descanso, desconexão ou usar alguma expressão moderníssima para explicar uma prática bastante antiga. Eu ainda prefiro uma palavra mais simples: fim de semana.


Meu telefone entra em modo avião e eu, sem sair do lugar, finalmente pouso.


E, se tu quiseres conversar comigo nas redes, sabendo que podes esperar alguns dias (risos), me encontras no @ariannearaujo e @comtato.online.

Comentários


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vamos começar do começo

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